Nosso país é mesmo o país dos contrastes e de um povo especial (pro bem e pro mal).
Na última quarta-feira final de dia me dirigia, à bordo de um táxi, para uma palestra de um amigo quando eu, ao celular, percebo uma movimentação bem na minha janela. Quando me dou conta, percebo um braço inteiro para dentro do carro. Um braço que segura uma arma, de fogo, como dizem na delegacia onde fiz meu BO no dia seguinte. Resumo da ópera. Em 1 minuto se vai meu note-book, minha carteira e tudo o mais que eu carregava na mochila.
Penso até que quem mais se assustou foi a pessoa com quem eu estava conversando ao celular, que a certo momento me perguntou: “está tudo bem?” e ouviu uma resposta bizarra: “está, mas estou sendo assaltado…”.
Estava mesmo tudo bem. A arma de fogo não teve que funcionar e em alguns segundos o motoqueiro assaltante já estava longe e seguro (no conceito dele, claro) e nós (eu e o taxista) também. Ufa! A mochila se foi, mas eu estou aqui vivinho.
O que se seguiu daí me fez refletir sobre nosso país, nossa gente sofrida e amiga, todas as nossas dicotomias. De Gaule disse que não somos um país sério. E talvez não sejamos mesmo num conceito de seriedade à francesa, ainda bem, mas somos um povo especial, mesmo com todos essa criminalidade, o desemprego, as dificuldades que nos cercam.
1 – Assaltante já fora do nosso alcance, solicito ao motorista do táxi que retorne ao meu escritório e ele, muito mais nervoso do que eu, tem um ataque de culpa. Diz ele: “eu vi o cara parado 2 quadras antes, nos olhando. Como fui burro! Como pude ser tão distraído” esbravejava. Era sincero. Estava realmente chateado com o infortúnio do próximo, no caso eu. Gente simples e sincera.
2 – Vou aos procedimentos de cancelamentos e bloqueios de cheques, cartões, etc. e noto como isso é simples e rápido hoje em dia. Sinal de tempos bicudos onde ser assaltado e nada (SIC) acontecer é tido quase como uma coisa boa! Gente amoldada.
3 – Dia seguinte, dia do BO, ou seja, Boletim de Ocorrência. Delegacia da Av. Berrini em São Paulo – nova, bonita, organizada, limpa e calma – não lembra nem de longe qualquer referência à Polícia sem verbas, despreparada ou algo desse tipo. Pergunto ao escrivão se posso ter alguma esperança no caso…. e ele responde com um muchocho desanimado: “não”. Gente conformada.
4 – Recebo ao longo dos dias seguintes vários e-mails e telefonemas se solidarizando comigo e me oferecendo ajuda. O que eu precisar. Se fosse preciso, até um note-book emprestado eu teria. Gente solidária.
5 – Ontem, aqui na Ilhabela, tentando colocar minha vida em ordem, trouxe um note-book velho que guardo para eventualidades como essa que, por ser velho mesmo, resolveu não funcionar. Nada de modem. E, sem web, nada de nada hoje em dia. Corro as lojas e descubro que ninguém vende uma plaquinha PCMCIA por aqui. Já na última tentativa, nada. O dono da loja vendo minha cara desolada, me diz: “não tenho pra vender, mas te empresto a minha, você me devolve amanhã.” Gente do bem!
Que país incrível é esse nosso Brasil. O bem e o mal, a alegria e a tristeza, a sorte e o azar convivem lado-a-lado, todos os dias, tão intensamente, nos deixando um povo vacinado, mas que não fica frio. Um povo desanimado, que não perde a piada. Um povo conformado, mas que se der, quer mudar. Um povo especial!
Êta país demais!
PS – Nós, empreendedores brasileiros, temos todas essas características entradas e somos um dos tipos empreendedores mais criativos, flexíveis e, ousaria dizer eu, realizados.