Considerando que você compartilha a idéia de que o que se leva dessa vida é a vida que se leva, viajar é preciso. Viajar para mim é, na verdade, sagrado. É caro, admito. Mas é demais.
Maridos pescando e mulheres no Guarujá? Homens esquiando e mulheres em Paris? Os meninos no Rally e as moças em Punta? Urgh, não é pra mim. Sempre desconfiei dos casais que, quando saem de férias, vai cada um pro seu lado em tribos diferentes.
Gosto de ir junto, descobrir junto, enfrentar roubada junto, falar a língua junto ou não falar nada, como nos aconteceu na China, fazer as aventuras junto, como caçar cabritos, uma aventura nas Ilhas Galápagos que participamos involuntariamente, beber junto, comer junto, curtir e sofrer junto.
No último reveillon fizemos uma viagem diferente. Juntos, claro, minha mulher Bia, nossa dog Crappy e eu – para um dos lugares mais incríveis que já estive – o Deserto do Atacama no Chile. Fomos de carro, mais precisamente com o Mr. Jens, meu Land Rover que você vê aí nas fotos, batizado assim em homenagem ao meu avô, grande aventureiro, amigo, companheiro e pessoa especial. Mr. Jens, o carro, nos levou por quase 9 mil quilômetros de estradas, para paisagens incríveis (algumas bem monótonas, também), a lugarejos especiais e únicos, a roubadas (poucas) e foi nossa casa por 16 dias. Mr. Jens, meu avô, onde estiver, olhou por nós.
Mais do que descrever trajetos, dicas ou lugares para se ver, penso que o que vale mesmo colocar nesse pedaço de papel são as experiências que vivemos, a emoção da viagem, os momentos mais intensos, tensos e felizes. Leia, curta, inspire-se e faça a sua viagem!
Dormindo no Mr. Jens
Meu Land é todo equipado e preparado. Pode-se dormir dentro dele, o que é uma experiência à parte, especialmente para quem nunca fez isso como a Bia e a Crappy. Pra entrar direto no clima, sugiro que acampemos já na primeira noite, chegando em Foz, depois de 12 horas de estrada, seguidos a 2 festejos de Natal, no sul (minha família é de lá) e em São Paulo na casa da turma da Bia. Estávamos exaustos, cansados, felizes que nossa aventura tinha enfim começado, mas mortos. Achamos um camping – a Bia me olhava meio atravessado no lugar, mas não disse nada – e fomos jantar. Chegamos de volta quase meia noite, tudo escuro, banheiros apagados, e nós cansadaços.
Estaciona o carro, ajeita dali, ajeita daqui, abre o teto, monta o motor-home, escova os dentes, xixi pra Crappy, comida pra Crappy, “Crappy, aí na barraca não!”, “sschhh, não grita, Bia, vai acordar todo mundo”, sleeping bag, “cadê a Crappy?” e, enfim, todos ajeitados. Todos mesmos! Nós e uns 200 mil pernilongos que acharam aquele carro muito aconchegante. Pára tudo, abre tudo, todo mundo pra fora, “Crappy desce!”, spray neles, um tempo…. tempo passado, todo mundo de volta pra dentro e claro, um mega calor. Hum, liga o ar? Sim. Refresca um pouco. Desliga? Eu desligo: “boa noite, Bioka, boa noite Créppum”. Sono profundo. Dia seguinte, dia lindo, amanhecer delicioso, perto da natureza, banho gostoso (sapinho espiando), sol nascendo… e seguimos viagem.
Avistando o Atacama
Já estávamos no 4º dia de nossa aventura quando cruzamos os Andes. A subida, ainda na Argentina, passando por Purmamarca, é maravilhosa. Um das estradas mais lindas e sinuosas que já passei. Sobe-se a mais de 4000 metros de altitude, um vazio impressionante e, lá de cima avista-se um platô enorme e o primeiro salar que se vê na viagem. Uma paisagem muito diferente, inusitada, única. Seguimos viagem, saímos da fronteira Argentina, subimos novamente a uns 4 mil e poucos metros, dirigimos um monte e de repente descortinamos lá de cima o Deserto do Atacama inteiro e o Salar do Atacama imponente lá no meio. É impressionante, deixa a gente mudo, estarrecido, sem palavras. Palavras até que me faltam agora para descrever essa sensação. Só vendo. Só indo lá!
Um gêiser de madrugada
San Pedro de Atacama é um vilarejo turístico incrustado no meio do nada. Quem transformou aquele pedaço de deserto no pólo que é hoje é um gênio. As cidadezinhas em volta são uma bela amostra do que seria San Pedro sem turismo: nada. Todas as atrações são, na verdade fora da cidade. Uma delas, os geisers, ficam a mais de 75 quilômetros e eles só “acontecem” na madrugada, lá pelas 5/6h da manhã. Como estávamos de Mr. Jens, acordamos cedo um dia e fomos pra estrada – de terra, claro. 75km de terra ruim à noite, leva quase 2 horas. Bia e Crappy num sono – chacoalhado – mas gostoso. Frio lá fora. Ao chegar, começando a aparecerem as primeiras luzes do dia, uma experiência muito legal. Os geisers espirrando aquela água numa luminosidade meio de lusco fusco criam um efeito indescritível. Apesar de lotado de turistas, o clima do lugar é quase que bizarro. Blade Runner, se você me entende. De repente um grupo de freirinhas cruza a nossa frente e o que já era bizarro fica totalmente surreal (foto). Toca os 75km de volta!
O céu do Atacama é qualquer coisa
Alain, um francês que se mudou pro Atacama, casou-se por lá e oferece um pacote de observação do céu, o SpaceObs (www.spaceobs.com), nos propiciou uma das experiências mais fantásticas da viagem. Olhar o céu é legal. Na verdade, confesso, é tudo meio igual: pontinho pra lá, pontinho pra cá, pontinho maior, pontinho menor, um monte de pontinhos e assim por diante. Com exceção de Saturno, onde se vêem os anéis perfeitamente, o resto é meio igual. Mas, por outro lado, a aula de céu (e de vida) que o Alain nos dá é maravilhosa. Nos sentimos pequenininhos, como um grão de areia do deserto e, ao mesmo tempo, importantes como um sol. Nunca pensei que pudesse aprender tanto em uma hora de papo pro ar.
Crappy avista o mar
No meio da viagem, um pouco secos (risos), resolvemos seguir pro litoral Chileno ao invés de ir para a Bolívia, onde veríamos mais deserto e salar. Muita gente diz que o Salar do Yuiuni é imperdível. Como não fomos, sugiro conversar com quem esteve lá. No nosso caso acabou sendo uma boa decisão pois a altitude estava fazendo mal para a Bia (o que só descobrimos depois) e descer pro mar foi ótimo. Dirigimos 3 horas em direção ao Pacífico e rapidamente estávamos lá. Lugar bonito. O deserto encosta no mar. Aquela praia com areias brancas e muito verde? Pois é, não lá. A coisa é pedra, areia de deserto, nenhum verde (nenhum mesmo!) e um marzão bravo de dar gosto.
Num certo momento, resolvemos parar para sentir aquilo tudo mais de perto. Escolhemos uma praia com um pouco de areia, vazia de gente e lotada de pássaros. Linda. O cheiro do mar era forte, salgado e entrava pelas narinas valentemente. Nossa Crappy ao ser solta e sentir aquilo tudo, delirou. Corria como uma maluca, mar adentro, mar afora, atrás dos milhares de pássaros, nadava, pulava, ria (só quem é cachorreiro entende isso, eu sei), voltava pro mar, saia, caçava um novo pássaro. Foi uma dança festiva, celebrando a água, o mar, a vida!
O mar que não quer nos largar
Finda aquela alegria toda pelo re-encontro com o mar, resolvemos ir embora. Arruma, limpa a areia, carrega a Crappy, motor aceso, vamos. Vamos! Hum, estou tentando. Como assim, está tentando? Não sai, acho que a areia é mais fofa do que pensávamos. Hum, a gente vai ficar aqui? Não, claro que não. Deixa tentar por ali. Nada. Hum, por aqui. Nada. Para a nossa sorte a praia era cheia de pedras enormes e, depois de tentar sair de todo que era jeito, passamos a nos guinchar. Quem já fez essa operação sabe que a coisa é lenta, trabalhosa e muito cansativa. Resumo da ópera: 2 horas depois, Crappum assustada dentro do carro e Bia ajudando com o guincho e com idéias e tomando 2 horinhas de sol a pino, saímos sozinhos do atoleiro. Panguice mór, essa foi!
Humberstone
Nos anos 1930 o Chile teve um boom da exploração do Nitrato de Sódio como adubo e, nesse período, floresceram minas e mais minas no meio do deserto. Como não há nada no deserto, formavam-se cidades inteiras que, durante os 30 anos do boom, foram muito ativas e ricas. Anos 60, por razões que não tivemos muita paciência de descobrir a fundo, o ciclo de encerra rapidamente e as cidades minguam e desaparecem. Uma delas, no entanto, é preservada quase que exatamente como era e se transforma hoje numa cidade-fantasma museu. Está tudo lá, o cinema, a igreja, o hospital, a padaria, o teatro, as máquinas. É uma visão incrível e para quem como eu tem um pouco de imaginação, é como navegar no próprio túnel do tempo. Você imagina as pessoas, aquilo fervendo de gente, trabalho, família, crianças na escola, a piscina e viaja… Sempre fui fascinado pelo passado, poder voltar, sentir como as pessoas se relacionavam, como viviam, como namoravam… Voltei em Humberstone. Adorei.
Voltando pra casa
Já estávamos há 12 dias na estrada e começou a dar aquela saudadezinha do nosso camão, do banho quentinho, da nossa casa na Ilha, da nossa vidinha gostosa… de modos que tomamos uma resolução: pé na estrada! O trajeto que fizemos na ida em 4 dias até o Atacama foi feito em 3 na volta! Uhu! Isso mesmo, é pé na estrada de verdade. 2 dias de 16h seguidas de chão e o último, de 21h de estrada sem parar! Quando se viaja de jipe, a viagem em si é parte do prazer e, para mim, dirigir horas a fio é uma delícia, adoro. Foram 3 dias ótimo, de reflexões, conversas gostosas, silêncios, muita música e o Brasilzão passando lá fora. Sempre bem abastecidos de salgadinhos, petiscos, barrinhas de cereal e uma coquinha gelada, tocávamos adiante, felizes por voltar para casa. Juntos depois de tanta coisa linda. Mais juntos. O CD Player que já tinha tocado de tudo, ao menos 2 vezes, agora era nosso companheiro fiel contra o sono. Volume sempre no talo. No último dia saímos de uma cidadezinha perto da Foz, ainda na Argentina, lá pelas 7h da manhã e chegamos em Sampa às 3h da manhã do dia seguinte. Sem parar. Mas foi fantástico, tínhamos a sensação de missão cumprida, de aventura realizada, de estarmos completos e abastecidos de energia boa para mais um ano e acelerávamos, pé no fundo (num Land isso não significa nada muito além dos 120km/h). Nando Reis nos acompanhou no trecho final, cantando tão alto como se estivesse dento do Mr. Jens. “Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia, eu não tenho mais a cara que eu tinha, no espelho essa cara já não é minha, será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia? Eu… não vou me adaptar, eu não vou me adaptar…”
Tks!