Essa semana lançamos o número 6 da nossa revista de fotografia (Fotosite) e, como fazemos em todo lançamento, promovemos um debate. O convidado e homenageado dessa edição foi o fotógrafo octogenário Thomaz Farkas, um dos personagens vivos mais importantes da fotografia brasileira. Amigos dele de longa data foram prestigiá-lo, fizeram discurso, elogiaram… a juventude, que mal sabe quem ele é, também estava lá, querendo beber da fonte de sabedoria. Foi emocionante, bonito, verdadeiro. Muito mais do que um debate, foi uma grande lição de vida.
Dividi com meu sócio no Fotosite: “espero chegar aos 80 ainda na ativa e, como o Farkas, ainda com coisas para dizer e com gente que queira me ouvir” e, contando para um amigo como tinha sido o evento narrei: “o Farkas é o avô que todos querem, que todos merecem. Pessoa boa, generosa e otimista com a vida”.
E, inevitável, me lembrei de meu avô. Mr. Jens como o chamavam (alguns de vocês já devem ter lido coisas minhas sobre ele, perdoem-me se me repito) não era um Farkas, não deixou tantas realizações e marcas como o Thomaz, mas era, assim como ele, uma pessoa especial, dessas que não quer só passar pelo mundo, mas quer viver intensamente, experimentar, ousar, acontecer.
Como empreendedor – e esse será o único link desse texto com o tema, fiquei na verdade com vontade de escrever sobre Mr. Jens – é fundamental que tenhamos algum modelo, alguém que nos guie mentalmente, alguém para se espelhar… e meu avô é esse modelo para mim. Assim como o Farkas o é para tantos fotógrafos.
Mr. Jens era um grande aventureiro, aquele tipo de pessoa que se entrega à vida, mergulha de cabeça no que faz e vive intensamente. Uma pessoa que gosta de gente, tem curiosidade pelas pessoas, pelo ser humano e que fez da sua vida uma história verdadeira e única.
Mr. Jens me mostrou que o que se leva dessa vida é a vida que se leva. Sem exageros na loucura, mas sem exageros na normalidade também. Ser normal, igual, é muito chato. Mr. Jens me mostrou que os sonhos que se sonha acontecem mesmo se não tivermos dinheiro, poder, riqueza. Me mostrou que muitas vezes não ganharemos todo o dinheiro que queríamos e que isso é OK e que não impedirá você de ser feliz. Ser feliz é mais importante do que ser rico. Mr. Jens me mostrou que a convivência com pessoas especiais pode ser muito mais gratificante do que dinheiro no banco ou carrão na garagem. Mr. Jens me mostrou como coisas simples na vida, como tomar um copinho de cerveja todo dia às 11h da manhã, só para saborear, sorvendo lentamente cada gole, pode ser tão mais saboroso do que um porre. Mostrou também que quando se precisa de um belo porre, deve-se tomá-lo dignamente. Mr. Jens me mostrou que existe um mundo lá fora, muito além do nosso bairro, do nosso trabalho, do boteco da esquina ou da balada de quinta, esperando para ser descoberto, desvendado e experimentado. Mostrou também que um bom vizinho pode ser ótimo. Mr. Jens me mostrou que a gente vê o mundo conforme os nossos olhos e que se mudarmos nosso olhar o mundo também muda. Mr. Jens me mostrou que viver vale a pena, mesmo quando parece que não. Mr. Jens me mostrou que laços de família são coisas formais, às vezes bons, às vezes ruins. Mr. Jens me mostrou que não existe sonho impossível, projeto impossível. Mostrou também que muita coisa não vai dar certo na nossa vida mas que, afinal, isso é normal, tantas outras darão. Mr. Jens me mostrou que é preciso viver o instante presente e que viver sempre no futuro, no projeto, no condicional, é péssimo. O tempo passa rápido e o tal futuro não chega nunca. Mr. Jens me mostrou que o mundo é lindo e que quando parece o contrário é porque não estamos vendo direito. Mostrou também que existe gente do mal e que para essas nada resta. Ignore-as. Mr. Jens me mostrou o lado da vida de aventura e que viver é em si uma grande aventura. Mostrou que a felicidade está dentro da gente, não nas coisas ou nas outras pessoas. Mostrou que nossa busca deve ser por realização pessoal, íntima e não pelas coisas que o mundo nos dita, nos impõe. Me fez ver que devemos seguir nossa intuição e não a manada que segue numa direção sem saber porque. Mr. Jens me ensinou a ser simples, a ver o simples, a dar valor pro simples. Mr. Jens me mostrou que o sofisticado, elaborado, é delicioso, saboroso, mas que se não pudermos obtê-lo, tudo bem, podemos ser felizes assim mesmo.
E me mostrou que viver intensamente é a única chance de não nos arrependermos quando chegarmos aos 80, 90, e que não existe nada mais triste do que alguém que passou por essa vida e não viveu, como dizia o poeta.
Obrigado Thomaz Farkas pela sua história. Obrigado Thomaz Farkas por ter me feito mentalizar meu avô dessa forma tão intensa. Obrigado Mr. Jens por ter me ajudado a ver o mundo desse jeito especial e otimista.
Abenção vocês 2!
Bacana Bob! Lindo mesmo.
Lições de vida de Mr. Jens para lembrar sempre!
Abs,
André