Como em muitas famílias brasileiras, a minha é de grandes misturas. Tenho sangue alemão, americano, norueguês e português, só na geração dos meus avós. Voltando mais, então, nem se fala. Entre 1998 e 2000 passei cerca de 1 ano em meio morando nos EUA, portanto pude testemunhar ao vivo como é morar e trabalhar naquele país.
Esta semana o mundo todo viu (se você não viu ainda, veja aqui antes de ler essa coluna – com som bom pra entender tudo, o que é fundamental) o Bill Gates mostrando um vídeo de si próprio na conferência de tecnologia CES 2008, no qual ele brinca com a sua própria aposentadoria, que acontecerá a partir de julho deste ano.
Além do vídeo ser sensacional, ter as presenças de Bono Vox, Al Gore, Hillary Clinton entre outros muitos astros e personalidades, ser bem humorado e nos mostrar um Bill Gates brincalhão, que poucos conhecem e talvez muitos acreditam não existir, ele nos coloca cara-a-cara com uma das coisas que mais admiro nos americanos: não se levar a sério demais.
O cara é simplesmente Mr. Bill Gates! Um dos homens mais ricos do mundo, um dos empresários mais bem sucedidos da história recente americana e, ainda por cima, uma das poucas pessoas no mundo hoje em dia que tem um trabalho social de impacto amplo e abrangente no mundo.
Aí ele sobe ao palco, com seu pulloverzinho de sempre, e começa a falar de sua própria aposentadoria, conta que pediu ajuda aos amigos e que aí resolveram fazer um vídeo… e mostra o vídeo, que começa com um dos homens mais poderosos do mundo – ele – saindo de casa para trabalhar – 6 AM na legenda – se esquecendo da própria pasta no teto do carro, enquanto se ouve Steve Ballmer, CEO da Microsoft, narrar ao fundo: “estava sendo planejado nos últimos 2 anos… ele ainda será o Chairman da empresa… mas é difícil acreditar que chegou o dia… acho que o Bill está pronto para o seu último dia, ele trabalhou duro, economizou um pouquinho…” E com a imagem de Bill chegando à Microsoft, saindo do carro e pegando a pasta do teto do carro, como se isso fosse a coisa mais normal do mundo, se ouve Ballmer dizer em off: “ele é C-O-M-P-L-E-T-A-M-E-N-T-E focado!”
É ou não é um desprendimento incrível? É ou não é uma capacidade de não se levar a sério demais? É ou não é uma capacidade de rir de si mesmo?
Independente de estarmos falando de Bill Gates – e ele é apenas um exemplo que uso por conta do episódio da semana – penso que a enorme capacidade empreendedora e inovadora dos EUA vem, em parte, dessa vocação de não se levar a sério demais, de ser capaz de tirar sarro de si mesmo, de achar que o que a gente faz não é o melhor, de saber rir de si próprio, muito provalvemente aliada à também enorme capacidade dos americanos de pensar grande, de querer fazer diferença, de conquistar o mundo.
Não amo nem odeio Bill Gates (e essa coluna não é para discutir se ele é isso ou aquilo) mas é inegável que existe uma elite americana que é inovadora, criativa, inventiva e que, ao mesmo tempo, consegue não se levar a sério demais para não ficar presa às suas próprias criações ou ao seu próprio umbigo.
Da minha grande mistura familiar, tento buscar no pedacinho de genes americanos que habitam no meu corpo esse desprendimento… mas claro, não esqueço nunca que tenho um par de genes alemães, noruegueses e… portugueses também! ;-)