Foi em 2005 que escrevi o artigo abaixo e hoje, as 5h15 da manhã, aqui estou eu fritando na cama, ou melhor, estava, pois como é óbvio, estou já no computador, editando esse texto e tentando entender a minha fritada matutina.
Reli o texto abaixo e fiquei refletindo:
- Não tenho conseguido cumprir a promessa que fiz a mim mesmo integralmente. Acho que até melhorei, mas tem dia – como hoje – que depois de uma hora rodando na cama, o melhor a fazer é transformar a fritação em algo mais produtivo, mais eficiente, mais divertido até. Aqui estou, escrevendo, desabafando comigo mesmo.
- Há cada vez mais coisas interessantes para se fazer as 5h da manhã na frente do computador. Twitter é o melhor exemplo, talvez. E como tem gente que está twittando essa hora!
- Fritar é uma coisa típica de empreendedor, penso, mas claro que não exclusiva. Fritar é, antes de tudo, uma sensação de que você pilota a coisa e aí a lista de coisas a fazer, ideias novas, projetos, problemas, soluções, etc, etc, simplesmente pópa na nossa cabeça e enquanto não tomamos alguma atitude – nem que seja escrever um artigo, fazer um twitt, ou mesmo responder todos os e-mails atrasados – não há mais sono que consiga te colocar de volta na cama.
- Fritar é resultado dos sentimentos de culpa e de mérito que o empreendedor tem. Há coisas pra fazer, coisas erradas, problemas para corrigir? Minha culpa. Tem coisas que deram super certo e me deixam feliz, mérito meu. Assim, se o cérebro desperta por qualquer motivo, tudo isso vem à cabeça. Se é culpa e mérito meu, posso resolver.
- Essa sensação de culpa e mérito é pesada, bem pesada.Tem o lado bom no mérito, claro, quando a gente se sente pai dos nossos empreendimentos, das conquistas, dos projetos. Mas tem o lado ruim, o da culpa, quando como por exemplo um colaborador não “colabora” como gostaríamos, e somos nós que nos sentimos responsáveis. “Deveria ter contratado melhor!” é o pensamento que me vem à mente. Como seria bom eu poder jogar a culpa em alguém e dormir melhor!
- Essa coisa de quem é responsável é outra que é pesada. Vejo meus amigos que trabalham pros outros e que conseguem jogar as culpas no chefe, na empresa, no empreendedor, na burocracia, nas regras, na velharia, seja lá o que for…. em algo ou alguém. Empreendedor é sempre o culpado. Mesmo coisas tipo o mercado nos deixam meio assim “mas eu poderia ter previsto isso antes….”
- Empreender é isso. É, para mim, uma cachaça que não consigo largar e que amo, mas isso não me impede de ver o lados malucos da coisa toda. E, como sempre digo, tudo tem um lado bom e um lado ruim e tudo – tudo mesmo! – tem um preço. Empreender tem o seu, claro.
Eu pago – com uma boa dose de prazer – mas pago!
Fritando na cama às 5h da manhã (em 2005)
Não sei se acontece com você também, mas comigo é fatal. De tempos em tempos quando as coisas estão agitadas ou complicadas na minha vida – ou seja, quando nada está morno, tudo muito quente ou muito frio – durmo pouco e minhas madrugadas são de fritação total na cama. Desperto como que se tivesse um mega despertador ao meu lado e todos os pensamentos possíveis me vêem à mente. Muitas vezes tento enganar meu cérebro comandando que pense em outras coisas ou mesmo que relaxe e me deixe dormir, mas nada, a fritação persiste, continua, até que levanto, sento na frente do meu computador e ponho pra fora as idéias, as “todo lists” e até mesmo a mais livre das pirações que meu cérebro produziu durante a noite. E dá-lhe piração.
Ontem almoçando como um amigo, ele me contava que toda vez que vai a NY fica fritando por lá. É tanta novidade, um mercado tão grande, tantas oportunidades que, de fato, é pra fritar. Contei a ele que acontece o mesmo comigo e que, cada vez que volto de NY, frito a viagem inteira no avião, só eu acordado, olhando aquela escuridão e ouvindo o típico silêncio barulhento dos aviões, com milhões de idéias, projetos, planos, indignações e sonhos passando loucamente pela minha cabeça.
Na reunião que tivemos com um cliente, logo antes do almoço, vivemos uma cena ótima: o cliente se atrasou, chegou mais de meia hora depois da hora marcada e nos disse, na maior honestidade do mundo, que estava dormindo. Foi franco, sincero e deixou de lado as hipocrisias tão normais em relações de trabalho. Gostei.
No almoço, meu amigo comentava que sua educação judia nunca o permitiria dizer que “estava dormindo” às 11h da manhã. E completou, na verdade suas heranças judaicas sequer o permitiriam dormir até as 11h da manhã num dia útil!
Fiquei pensando no meu fritar às 5h da manhã, no meu amigo culpado por cogitar não acordar cedo e partir para a labuta e no meu cliente dormindo até as 11h da manhã, sem culpas, curtindo sua manhã tranqüila e vi que, grande parte da nossa vida, das culpas, dos medos, da responsabilidade ou da irreverência, somos nós mesmos que nos impomos.
Assim sendo, comuniquei ontem a Bia, minha mulher – que por sinal dormiria até as 11h tranqüilamente se eu deixasse! – que vou re-programar meu cérebro e que não quero mais fritar na cama as 5h da manhã.
Sem culpas, sem “hard feelings” comigo mesmo. Eu me permitirei isso.
A fritação de hoje? Hum… foi às 7h…
Eu chego lá!
Bob,
Aprendi algo muito simples com os índios: pare 5 minutos, contemple ou feche os olhos, 5 vezes por dia,
- acorde e tome 5 minutos para deixar a noite na noite, e levante;
- antes do almoço, tome 5 minutos e deixe a manhã na manhã;
- no pôr do sol, tome 5 minutos e deixe o dia no dia;
- ao chegar em casa, antes de entrar, tome 5 minutos e deixe o trabalho no trabalho;
- antes de dormir, tome 5 minutos e deixe o ontem no ontem e prepare-se para descansar e viver o amanhã, se assim for chamado a viver.
Relaxe, respire, medite, durma, viva e empreenda.
Abração, Marcos