Como faço muitas vezes, dei uma aula para uma turma de trainees de uma grande empresa. Além de atitude empreendedora, o tema desta vez abrangia também “viver em rede”, ou seja, um novo jeito de pensar, mais colaborativo, sempre em beta, com nova relação de poder, forças e relacionamento entre as pessoas.
Foi um desafio bacana e, pela turma ser zero-bala, ou seja, sequer começou a trabalhar na empresa ainda, foi riquíssimo. Quase que uma preparação ritualística para a chegada dos jovens à empresa, que os quer pilhados, turbinados e pensando em rede. Bela iniciativa da empresa.
Pedi ao Michel Lent (@lent) que fizesse uma palestra pra turma sobre nossa identidade digital para que eles pudessem não só entender o conceito amplo de viver em rede, mas também o que é viver em redes digitais, como esse blog que você lê, o Twitter, FB, etc… Michel, como sempre, arrasou e fez nossos alunos pensarem. O que era exatamente o que eu queria que ele fizesse.
No dia seguinte, fazendo um wrap-up das provocações que havíamos feito a eles, engatei com os alunos numa discussão 2.0, em rede, aberta, livre, 100% espontânea e democrática, sobre nosso eu digital x o eu “real”.
Muitos deles entendem que o eu digital é fake, diferente do que somos na verdade e minha tese foi mostrar a eles que todos temos personas: a persona trabalho, a persona filho, a persona pai, a persona amante… e assim por diante, e que o mundo digital é apenas mais uma persona em nossas vidas.
Entendo, disse a eles, que quanto mais diferentes e distantes entre si forem as personas de uma pessoa, mais ela viverá em conflito, e o inverso, penso, é também verdadeiro: quanto mais nossa vida pessoal, emocional, profissional e digital for próxima e alinhada (via nossas várias personas), menos conflitados e surtados seremos. Mas, por outro lado, não existe alguém que seja 100% a mesma persona em tudo.Nos diz o @renedepaula no Twitter agora enquanto escrevo isso “quem eh igual em todos os contextos tem uma deficiência severa de social skills”
Sendo assim, a persona digital das pessoas é ela mesma, ou melhor, uma faceta dela mesma.
Provoquei-os a pensar que, mesmo quando a persona digital é muito diferente da “real”, aquela também é uma das facetas daquela pessoa e que o universo digital a deixa confortável (seja pelas razões que for) para mostrá-la e, portanto, é tão “real” quanto as outras.
Contei a eles um episódio (já relatado aqui neste blog) onde, em uma palestra sobre ética digital, mostrei às 100 pessoas presentes, a comunidade “gosto de fazer amor beijando” em que uma das presentes à palestra participava abertamente (não bisbilhotei nada que ela não mostrasse para 1 bilhão de pessoas) no Orkut. A moça em questão, que trabalhava na ONG onde eu me apresentava e estava sentada na primeira fila, ficou vermelha, envergonhada e puta comigo na época, mas a fiz entender que se ela se mostra na web, ela se mostra pra todo mundo, pro chefe, pra colega de trabalho, pra mãe, pro pai, pro namorado… e que se houvesse algo de constrangedor que a fizesse ficar vermelha, isso estava ali na cara de todo mundo… e seria muito injusto ela ficar brava comigo por eu apontar isso para míseras 100 pessoas, uma parcela ridiculamente pequena da população da web.
Ela não gostou mas entendeu. De fato, se você não acha uma boa que sua mãe ou o RH da sua empresa vejam seu Orkut, mude o seu Orkut, pois elas verão, com certeza. As mídias sociais são lugares públicos e as pessoas devem fazer nestes lugares públicos o que se sentem à vontade para fazer em lugares públicos. Se for algo pra 4 paredes, que fique entre 4 paredes ou, se você orkutar ou tuitar tudo, não venha dizer que não sabia que o RH da empresa olha esse tipo de coisa… ou sua mãe…
Entre alguns olhares preocupados de “preciso rever meu Orkut”, meus alunos ficaram provocados com a história e alguns insistiram ainda que eram mundos diferentes, o “real” e o digital. Um real e outro fake.
Como adoro uma provocação, fui além, conduzindo e embarcando com eles numa discussão que acontecia ali em rede (que fantástico: o que eu estava tentando ensinar para eles acontecia ali ao vivo e a cores na frente deles!) sobre nossas personas digitais.
Criei a seguinte hipótese. Imaginemos 3 situações que uma funcionária da empresa em que eles trabalharão criasse: 1. Ela tira umas fotos dela mesma nua e publica no Flickr; 2. Ela tira as fotos nuas e leva as fotos pro trabalho e mostra para um pequeno grupo na hora do almoço; 3. Ela resolve levar um fotógrafo amigo pro trabalho e tira a roupa lá, ao vivo, e quem estivesse por ali presenciou a cena.
Todos me olhavam com curiosidade, até porque meu exemplo era mega-bizarro, muito mais do que o “fazer amor beijando” da moça da ONG.
Minha primeira pergunta foi: é diferente? Qual a diferença? “O meio é diferente”, concluíram alguns, mas concordando que as 3 hipóteses eram expressões da mesma pessoa.
Ou seja, no Flickr, no papel ou ao vivo, as 3 situações eram todas reais.
As fotos no Flickr não eram menos verdadeiras do que as fotos mostradas na hora do almoço nem do que o click ao vivo na própria empresa. Tudo é diferente, mas real.
“O resultado é o mesmo”, disse um dos participante do papo que, a essa altura, estava quentíssimo, interessantíssimo. Verdade, disse eu. O resultado é o mesmo (fotos nua) com meios diferentes e todos igualmente verdadeiros.
Vejamos o que aconteceria na empresa. O esperado é que o Flickr fosse pedido para ser retirado, as fotos na empresa gerassem uma reprimenda da empresa e que o “ao vivo” criasse no mínimo uma licença médica forçada para tratamento psicológico, mas o mais provável seria mesmo um convite a demissão da moça… que poderia tentar outro tipo de carreira, à vontade, mas fora da empresa.
Certo? Pode ser, mas e se a coisa acontecesse de outro jeito?
Imaginemos diferentes situações para cada episódio:
1. Os amigos que viram as fotos na hora do almoço, fossem todos homens, gostassem do que viram, e resolvessem não contar para ninguém (especialmente para o RH) e nada acontecesse neste caso.
2. A turma que viu o click ao vivo achasse aquilo uma mostra de ousadia e até mesmo um modo de expressão artística e também não desse maior importância, não relatando o fato para o “departamento responsável”, e ninguém “importante” visse a cena ao vivo e nada rolasse e…
3. As fotos do Flickr fossem copiadas por sites pornográficos, girassem por toda a empresa com o nome da empresa gravado junto ao nome dos arquivos das mesmas, e tudo terminasse num pequeno show de horror em milhares de sites de pornohumorexploração digital?
Qual das personas (a digital, a papel ou a “real”) causaria maiores problemas neste caso? A digital, claro, responderam todos.
“It’s a bingo!”, brinquei eu (quem não viu Bastardos Inglórios não sabe do que estou falando…)
E com caras de maroto, todos nós, vimos que, de fato, todas as personas que usamos na vida são um pouco (ou muito) do que somos na “real”, e que o digital pode ser tão ou mais real do que o “real”.
Aí um garoto lá do fundo diz: “o que muda não é se é “real” ou “virtual”, o que muda é a experiência!”…
Pois é, digo eu, muda a experiência… e mudam as conseqüências… e aí a gente – trabalhando em rede ao vivo e a cores – pôde concluir que nossas personas (P) (a digital inclusa) são todas nossas, todas reais e verdadeiras, que podem nos levar a resultados (R) eventualmente iguais (fotos nuas), mas com experiências únicas e diversas (E) e com conseqüências (C) sempre diferentes!
E criamos as fórmulas:
EU = P1+P2+P3+Pn
P1 = R
P2 = R
P3 = R
E1 ≠ E2 ≠ E3 ≠ E4 ≠ En
C1 ≠ C2 ≠ C3 ≠ C4 ≠ Cn
Ou seja, é tudo real, digital ou físico. O que é diferente é a experiência e, claro as conseqüências, mesmo que o resultado pareça igual.
Provavelmente piramos o cabeção mas foi uma das mais incríveis discussões pensadoras que tive nos últimos tempos, especialmente do jeito “em rede” que ela aconteceu, e que me fez refletir uma coisa: viver esse incrível mundo digital é maravilhoso, mas pensar é importante!
;-)

Olá Bob,
Esse é o tipo de provocação que realmente desperta muitos insights bacanas junto aos trainees.
Creio que um outro aspecto dessa questão toda tem muito a ver com a percepção do coletivo e as ações desencadeadas por ela.
É muito comum vermos pessoas criando associações despretensiosas (e naturais) de aspectos de sua personalidade através das informações que agrega aos seus perfis sociais, assim como também nos conteúdos que compartilha.
Porém, já podemos notar uma forte tendência ao surgimento apropriações premeditadas, onde o lado despretensioso da coisa é deixado de lado e o “egocasting” é utilizado para criar uma imagem distorcida com a finalidade de projetar aquela “persona” no meio virtual. (vide o caso do mass following script do twitter, entre outros)
A própria virtualização das relações humanas já pressupõe a criação de códigos totalmente novos para mediar essa evolução em nosso convívio.
Acredito que estamos vivendo o momento mais claro dessa transição onde, passado o momento inicial em que tudo era novidade, seguido pelos primeiros grandes erros e impactos negativos, estamos renegociando essas “regras” através de uma nova onda de valorização dos filtros.
Parabéns pelo Empreende Brasil, é através de iniciativas como essa que vemos que a onda de pessimismo a respeito do empreendedorismo brasileiro é apenas mais do mesmo bullshit de quem só fica parado reclamando.
Abraços ;-)
E bem complexo tudo isso, é meio que o EU IP onde hoje em dia quase ninguém mais é um nome e sim um IP, um e-mail, um profile as pessoas estão cada vez mais globalizadas, e cada vez mais distanciadas do que a realidade os proporciona. Claro que com todo esse clima de cooperativismo da web, facilitam muito mais a troca de idéias e criação de conteúdo colaborativo, mas mesmo assim as pessoas ainda estão presas dentro de seus escritórios, casas, etc. Talvez seja um pouco radical, mas ter tanta facilidade nos torna nocivos, ao que realmente é e para que sirva a tecnologia.
“Será que ser tão tec, não é apenas uma desculpa para nos afastarmos da realidade de palpável”.