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Vou até a cozinha e sinto o cheiro de Itapeva. Conectado estou. O mundo tem cores, sons, emoções, mas sou ligado nos cheiros. Uma nesga odorífica qualquer me transporta imediatamente para 20 anos atrás. Um perfume me sintoniza naquela que já fez parte da minha vida. Uma comida que chega à mesa me liga a lugares, pessoas e coisas de um passado que está todo lá, como que em caixinhas ou escaninhos, esperando que um nariz qualquer comande o re-encontro. Assim me parece. Tenho bom nariz e as emoções batem forte. Não me conecto em cheiros que me lembrem coisas ruins, talvez por eu ser um otimista incurável.
Itapeva é um lugarejo místico na vida da minha família. É lenda e memória viva em todos nós, não escapa um. Nos pegou faz tempo e até hoje. Preciso sentir Itapeva ao menos 1 vez por ano. Fica no sul, numa praia perto de Torres. Foi desvendada para a família por meus avós – Irma e Jens – há uns 80 anos, mais ou menos. Tudo começa com um casal – os Black – que lá montam uma pensão de férias pelos anos 20 onde meus avós passam férias e se apaixonam pelo lugar. Surge um loteamento e com muito sacrifício eles compram um pequeno lote, tipo 10 por 10. O loteamento vai à falência, as ruas e as benfeitorias nunca são feitas mas meus avós- inebriados com a magia do lugar – fazem subir um chalezinho simples com a ajuda de um marceneiro local (outra lenda na família, o Vitor) o qual batizam de Tatuira, pois ambos têm os olhos pra trás (no caso da casinha, as janelas dos quartos). Tatuira se ergue, pequena e charmosa, em um campo verde imenso, sem ruas, sem postes, sem luz elétrica, sem água encanada, só com o essencial. Por coisas do destino, meu pai andou por Itapeva antes da minha mãe ser candidata a minha mãe e quando isso já era o caso, ainda mais. Minha infância foi literalmente e intensamente vivida em Itapeva. Shopping Center? Disney? Sapatos? TV? Cidade grande? Nada dessas coisas desnecessárias que criamos e depois achamos que são necessárias. Não são!
Itapeva gerou em mim um olhar especial do mundo, me fez mais humano, menos bicho. Me fez colocar o pé no chão, mexer com terra, sentir a força da natureza, a chuva forte batendo na cara, as areias escaldantes das dunas, o passado nos sambaquis (sítios arqueológicos), o marzão imponente, zangado à vezes, mas sempre aberto para um mergulho. Vivi as brincadeiras simples das crianças, percebi o valor da gente simples bebendo e contando causos na venda (lojinha do Seu Luis, outro personagem especial do lugar). Itapeva me fez valorizar o que se leva dessa vida – o prazer, a emoção, as pessoas verdadeiras – e dar o devido peso pro resto, o dinheiro, as coisas materiais, as pessoas falsas, as porcarias do mundo.
Cheiro de Itapeva é cheiro de travessura, de engenhocas infindáveis com meu avô, grande aventureiro e meu melhor amigo, da carne assada fantástica e deliciosa feita em fogão à lenha pela dona Quinha (mulher do Seu Luis da vendinha). Cheiro de Itapeva é cheiro de banho gelado de balde, de luz de lampião, de pôr do sol logo depois da “janta” (como se diz no sul), de milho frito feito pela vó, de chucrute também feito por ela, de sorvete em Torres, da tinta dos quadros do meu pai, do ovo frito no café da manhã da minha mãe, da primeira namorada, do primeiro beijo, de vida.
Que bom que fui até a cozinha.
